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segunda-feira, 20 de julho de 2009

Defesas de Caráter - Dimas Calegari

   

Para um artigo sobre este material, acesse

Baseado no Livro Da teoria do corpo ao coração, de Dimas Calegari. Participei por dois anos do curso de formação vivencial e teórica ministrada pelo autor. A abordagem de Dimas é reichiana. Seu livro é claro e bem escrito. Ele consegue fazer um resumo do Reich terapêutico, ( mais da fase de análise do caráter do que da fase da vegetoterapia) num livro de pouco mais de 100 páginas. Dimas é muito generoso quando traz informações e descrições sobre os processos corporais e sobre a teoria complicada do mestre. É o melhor tradutor da obra de Reich disponível na lingua portuguesa que temos, de todos que pesquisei. Sua abordagem é influenciada pelo trabalho de Elsworth Baker, no que se refere aos tipos repressivo e insatisfeito, e pela abordagem de Alfred Adler, no que se refere a sua fase do poder ( fase latente Freudiana).
Mas porque ler Reich? Para entender com clareza as estreitas relações entre o mundo psicológico do cliente e a estrutura de seu corpo. Para frustração da psicanálise, que o renegou covardemente há quase um século, quando o terapia do ego falha, temos ainda um recurso valioso. Buscar a cura e o tratamento no corpo, na expressão emocional e caótica da libido represada. Sei do que falo, pois fui e sou reiteradamente curado pelo corpo, não pela mente. Meu argumento é vivencial.

Boa leitura.
Andre B. - Julho de 2009.

Desenvolvimento do ego infantil.

Introdução.

1. Ainda no útero, a criança reage aos traumas da vida uterina, que são guardadas na memória biossistemica. Os traumas ocorridos nesse período levam à resposta vegetativa, e são núcleos que podem ser reativados mais tarde como couraças vegetativas do cerne ou visual. O autor afirma que a origem primaria das biopatias remonta ao período intra-uterino.

2. Após essa fase, podemos falar em desenvolvimento do ego infantil e dividi-lo em cinco partes: Visual, oral, anal, genital infantil e poder.

3. O desenvolvimento ocorre de tal modo que algumas áreas corporais, assim como sua forma de prazer estão em maior evidencia. O ego deverá desenvolver o controle corporal de tais funções, assim como equaciona-lo em sua relação com o meio ambiente.


4. A solução de cada etapa implica em conflitos, pois o ego precisa equacionar a sua relação com o meio: O conflito poderá ter três tipos de solução: Solução satisfatória, Fixação insatisfeita, fixação repressiva.

5. Solução satisfatória: O anel que representa o lócus corporal manterá sua pulsação e a energia fluirá normalmente para a fase seguinte, ativando outro lócus. O ego mantém o controle ativo sobre a função. Exemplo passagem do lócus oral para o andar (anal).

6. Fixação insatisfeita: O ego não desenvolve o controle ativo da função e mantém-se sintonico e preso a ela, limitando o fluxo energético para a fase seguinte, gerando comportamento infantil e impulsividade. Mesmo exemplo da oralidade. Não desenvolve o impulso de morder, fica fixado na necessidade de alcançar o prazer não obtido na infância. O andar, por sua vez, não se desenvolve plenamente e é frágil.

7. Fixação repressiva: O ego se mantém distonico com a função bioenergética, gerando formações reativas, limitando o fluxo para a etapa seguinte. No exemplo da oralidade, o ego será rígido, como que dizendo “não preciso de ninguém”. Terá uma rigidez na musculatura mastigatória, exacerbando a agressividade nessa fase oral.

8. Sempre que ocorrer qualquer tipo de fixação, isto influenciará a fase seguinte, pois parte da energia ficou retida na fixação. Implica que houve encouraçamento do anel em questão, com perda total ou parcial do prazer subseqüente.

9. A partir dessa perda, desenvolvem-se comportamentos e soluções substitutas. O comportamento se fixa. Na fixação repressiva, formações reativas ocorrerão. Estas reações tendem a ser contrárias ao impulso original.

10. Seguem descrições das fases de desenvolvimento do ego infantil.

a. Fase visual

1º movimento intencional que o bebe realiza: Movimento dos olhos. A criança começa a vivenciar um ego ativo-perceptivo. Esse movimento também ativa a onda energética ascendente onda um em direção aos olhos, o que faz com que o ego assuma o controle ativo e voluntário deles. Desenvolvem-se a convergência binocular e a visão bifocal. Percepção de objetos parciais: Seio, ponta do nariz. Essas partes da mãe fazem parte do eu, enquanto uma mãe vaga está separada. A fase visual caminha para a visão perceptiva clara de que se trata de dois corpos diferentes. O bebe é fisicamente separado da mãe. Aqui ocorre também o centramento da identidade energética do bebê. Se durante este primeiro impulso da criança, o mundo for percebido como hostil e perigoso, a onda um pode ser paralisada na nuca, impedindo-a de chegar até os olhos (esquizoidia). Os olhos apresentam-se com as pupilas dilatadas, baixa discriminação entre a visão macular e do campo, e precária visão binocular. Por trás dessa paralisação, encontramos sempre um pavor difuso do mundo. O movimento perceptivo de ir para o mundo leva a uma percepção clara do objeto, e uma separação perceptiva eu-tu. Assim, o campo energético do bebe começa a se organizar e a se separar da mãe. Quanto mais efetiva for a separação, mais energia se concentrará no cerne, conferindo a base energética da confiança básica (crença de que se pode retirar em direção ao eu sem culpa e sem temor de rejeição ao retomar contato). O não acolhimento traz a crença de que o mundo é rejeitador e que não vale a pena se relacionar. A angustia materna diante do recolhimento do bebe traz a vivencia da culpa primaria, que força a manutenção da simbiose e a negação da própria individualidade. Pessoas que se mantém em estado simbiótico manifestam culpa quando estão na iminência da separação. Os masoquistas, mais fechados, sentem culpa constantemente. Essa é a origem da culpa primária, e não a agressão ou negação ao outro.

A fixação pode ser:

- repressiva: O ego não assumiu o movimento de ir para o mundo. Olhos perdidos e distantes, desfocados. A identidade energética não está no corpo; Está distante.

- Insatisfeita: Olhos famintos. Ego rigidamente ligado aos olhos. O ego não consegue abandonar a atitude ativa do olhar. Baixa discriminação entre visão macular e de campo. Identidade energética está ligada de forma difusa ao campo energético, e não consegue retornar ao cerne. Voyeurismo e estados paranóicos (estado de vigilância constante).

b. Fase oral

Boca desempenha 1º movimento de contato e busca no mundo, o que leva a uma relação simbiótica com a mãe, e seu conseqüente prazer oral. Energeticamente significa a ativação da onda um até a boca, levando o ego a assumir os movimentos de sucção, deglutição, mastigação, busca ativa com os lábios, dentes e mãos e som articulado. Ocupa o primeiro ano da vida do bebê. O ego assume pouco a pouco o controle sobre a carga de excitação de seu organismo. O bebê busca a mãe para satisfazer suas necessidades básicas, e ao mesmo tempo em busca de amor e cuidados. Se a mãe responde positivamente, o bebe organizará a vivência de que o mundo é bom e que ele está sendo amado e recebido. A capacidade de busca manterá o nível de carga e excitação que resultarão na descarga e no prazer. Assim, a busca oral promoverá a crença num mundo bom que deve ser buscado, recebido e incorporado. Essas duas vivências se somam à crença de se ser ou ter algo bom internamente. Isso determinará a relação básica com o mundo, que se expressará como crença na vida, na relação, no amor, em si próprio. Assim, formam-se duas crenças básicas: Sou amado e o mundo é bom; Sou rejeitado, não sou digno de ser amado ou recebido. A força e eficiência da ação egóica nos lábios ativarão capacidades como ter garra, força, persistência e determinação na busca ativa do mundo. Na 1ª fase oral, cerrar os lábios é a única forma de dizer “não!” que o bebe dispõe. Em torno do sexto mês, surgem os primeiros dentes, e com eles uma ferramenta mais eficaz de expressar sua negação: O cerramento das mandíbulas e dos dentes. Nesse período, se inicia outra habilidade: A produção de sons guturais, independente da audição da criança. No mesmo período, a melhor articulação dos braços e pernas permite à criança uma busca mais ativa do mundo ao redor. Ele apreende objetos e os leva a boca para reconhecimento. O conceito da fase oral do desenvolvimento engloba funções ligadas ao anel oral e outras ligadas ao cervical e ao peitoral. “O bebê busca a mãe com os olhos, sente-a com a boca ao mamar e tenta alcançá-la quando a toca com as mãos, durante a amamentação”. A produção sonora, para Calegari, é importante no aprendizado da criança de que ela é um ente separado da mãe. O som “má” desencadeia intensas vibrações viscerais. A transição do sugar para o morder trará mudanças significativas. A situação torna-se critica com o desenvolvimento dos dentes. Ainda ligado ao seio e ao prazer suave, o ego infantil passa a ativar agressivamente a função muscular e a desfrutar da capacidade de ter força e de interferir no mundo. Esta função é que se desenvolve e leva ao rompimento da dependência absoluta da mãe. O prazer narcisico de ter força para dizer “não” a intrusão do alimento na boca, contra a invasão oral, conflitua com o prazer de sugar e se alimentar. Todo esse movimento da criança pode ativar angustias na mãe. A reação materna pode ser vivenciada pelo bebê como se ele estivesse atacando-a ou destruindo-a. Encontramos um temor inexplicável em pessoas que se fixaram nessa fase, quando em terapia é pedido que mordam. Pode haver culpa. Nesse período se estabelece a confiança básica na ação. A noção de que se é amado em sua atitude agressiva e ativa no mundo. Após a energia de a onda um chegar aos braços, ela segue para baixo, descendo as pernas e pés, e relaciona-se com a busca de amor na figura paterna e em seus substitutos. Após estabelecer o controle dos olhos, o bebe começa a organizar a sustentação da cabeça. A ativação da musculatura da coluna é primeiro passo no desenvolvimento da postura ereta e de sua auto-sustentação.
A postura ereta é anterior à função de caminhar. É necessária para que as estruturas egoicas se formem. É preciso se auto-sustentar para depois agir! É função do eu.

Etapas de se alcançar a postura ereta:

- Engatinhar.
- Uso dos membros superiores como sustentação.
- Intensificação da lordose lombar.

A organização da coluna e da postura ereta está ligada à relação com o pai. O centramento energético e desenvolvimento da postura ereta são funções primitivas e se relacionam com a organização interna da pessoa, enquanto o ego liga-se ao mundo das relações. Deficiências no centramento e na postura levam o ego a se comprometer com elas, tendo conseqüências futuras no desenvolvimento.
O ego infantil tem agora duas vivencias que precisam ser integradas. A visual (Organiza a percepção do mundo e a auto-imagem), e a oral (Base da ação egóica efetiva no mundo). Sua não integração leva a distorções entre o que uma pessoa pensa ou imagina sobre si e sobre o mundo e sua capacidade de ação.

- Fixação oral repressiva

Anel oral contraído, pele fria e acinzentada, boca fechada e retraída. O ego não conseguiu assumir integralmente as funções orais. Movimento de busca e de contato muito rebaixado, inclusive para alimentos. Anorexia e depressão. Anel oral apresenta baixa carga, e incapacidade de descarga ou de prazer. Se a baixa carga predomina, o quadro resultante é o da depressão. A auto-imagem e capacidade egóica estarão muito rebaixadas, pois a fixação será repressiva em ambos os anéis. Se houver alta carga e excitação sem descarga, a alta energia poderá levar a função fálica com a oralidade repressiva. Em tal situação, a auto - imagem poderá divergir da ação efetiva, se houver visualidade insatisfeita. A frustração total ou a interrupção precoce do sugar podem levar ao desenvolvimento prematuro do morder. A vivencia infantil estará assentada na descrença na relação e numa atitude determinada de não precisar do outro. Possíveis causas: Frustrações alimentares, falta de contato com a pele, desproteção em relação ao frio ou calor, a não amamentação, seio frio e insensível, substituição do leite materno, não acolhimento afetivo. Resulta na incapacidade de desfrutar o prazer oral, e na descrença na relação e no amor. Por trás da declaração “não preciso” está o “não consigo (alcançar o prazer oral suave)”. O desenvolvimento precoce do morder produz o endurecimento da musculatura oral e a fixação no prazer narcisico expresso no “Não preciso de ninguém”. Quanto maior o nível de carga e a impossibilidade de prazer suave, maior o endurecimento da musculatura mastigatória, o que trará a vivencia narcísica de força e poder. A falta de amor e de proteção ocasiona o desenvolvimento precoce e reativo da auto-sustentação com intenso comprometimento do ego. A postura torna-se rigidamente ereta e as pernas espásticas como estacas fincadas no chão. O eu está protegido e não vem para a relação. Não acredita nela! Na oralidade repressiva encontramos a critica mordaz, a ironia, a anorexia e a depressão. A função oral é muito importante para a manutenção de carga no organismo, o quadro depressivo pode caminhar para quadros biopáticos, pela baixa progressiva de carga nos tecidos. Quando a magreza, fragilidade física, depressão, isolamento e sintomas vegetativos forem traços marcantes, a tendência biopática deve ser levada à sério. Seus traços básicos são a descrença no prazer suave e na relação. Quando se associam a visualidade e a oralidade repressivas, a descrença na relação mais a experiência de um mundo hostil conduzem a um encolhimento geral do organismo. A área diafragmática apresenta-se chupada e contraída, retraindo a energia para o centro do corpo, impedindo sua expansão. Todo aumento de tensão, seja de carga ou excitação, é experimentado como insuportável, levando-o a descargas como vomito diarréia, pânico. Hipersensibilidade a alimentos, ambientes com muito estimulo, relações mais intensas. É como se o corpo, em especial o anel diafragmático não possuísse espaço para abrigar aumento de tensão.

- Fixação oral insatisfeita.

Ego mantém-se fixado no sugar. Estabelece uma relação de dependência constante com o ambiente. Anel oral expandido, pele quente, boca aberta e avançada, como que a busca do seio. Baseia-se na incapacidade do ego para promover a descarga do anel oral. Fixação na atitude de sugar e desenvolvimento insuficiente do morder. Carece de atitude narcisica, pois sempre “precisa de tudo e de todos”. Sua vivencia infantil baseia-se na crença de que ele é amado, de que o mundo é bom, mas perderia a mãe se desenvolvesse a satisfação narcisica. A criança necessita e exige muito da relação! Musculatura oral hipotônica (mordida insuficiente). Hipotonia se manifestará em outras partes do corpo, que caracterizará sua baixa capacidade de ação no mundo. Auto-sustentação precária. Eu exposto e sem proteção. Está sempre disponível para a relação, porém com pouca capacidade de se reorganizar e retomar sua individualidade. Auto-imagem engrandecida, em contraste com a baixa capacidade de ação efetiva. É comum ligação com drogas e álcool. Oralidade insatisfeita liga-se muitas vezes a visualidade insatisfeita e sem centramento da identidade energética. Essa condição pode levar a estados maníacos ou psicótico-maniacos. Tal associação do visual com oral insatisfeitos remonta à relação com a mãe, que compensa oralmente o bebe, ao não suportar o rompimento da relação simbiótica. Ela estimula a manutenção da dependência oral e a preservação do estado simbiótico.
Voracidade, obesidade, drogadição, alcoolismo, quadros hipomaniacos e maníacos. Extensa variedade entre a depressão e a mania. Psicose maníaco-depressiva (Bi-polar).
Função oral: Podemos entender a dinâmica da inveja: Tendo algo entre os dentes, não mastiga e usufrui nem o larga. A boca permanece rigidamente entreaberta, não se abre para abocanhar o objeto desejado nem se fecha, paralisando o anseio. Ante esse impasse interno, a única solução é a de destruir o valor do objeto desejado.

c. Fase anal

Após estabelecer a confiança básica na ação, o movimento seguinte será o de estabelecer a autonomia interna. Até então os movimentos respiratórios, excretórios e emocionais eram vividos de forma passiva. O crescente desenvolvimento neuromotor leva a criança ao controle progressivo da ação, cujo ápice é o desenvolvimento da marcha e do estar ereto sem esforço. Controlar os esfíncteres e tudo o mais expressam sua autonomia em relação às funções internas e a conquista de um espaço mais amplo de relação com o mundo. Estende-se até os dois anos e meio. Energeticamente ocorrerá a ativação da onda dois do orgonome material. Essa ativação levará ao controle da respiração e dos esfíncteres, e da fixação da posição dos quadris, estruturando a base corporal ereta.

Diferenças que a fase anal traz:

- Fonte do prazer: Eliminação de produtos internos, e não mais contato com objetos externos.
- Movimento energético passa a ser descendente, ao invés de ascendente (oral).
- Ao prazer da excreção soma-se o prazer narcisico de prolongar, reter ou ativar a eliminação.
- O processo de descarga anal é altamente eficiente na solução biossistêmica (baixo nível de angustia do tipo anal passivo).
- Movimento descendente da energia ativa funções a serviço do contato com a terra, com o mundo das relações, com a realidade.

Período em que a criança já não é mais um bebê, que se volta para si mesmo, a fim de estabelecer uma identidade e autonomia interna. Sua solicitação de amor e cuidados diminui ao mesmo tempo em que começa a organizar seu espaço e seus objetos pessoais. Seu quarto, sua caminha, seus brinquedos e seu prazer pessoal passam a ser o centro de seu mundo.
Sobre essa evolução natural sobrevém exigência de controle esfincteriano e de higiene que conflitua com o prazer anal. Esse fato chama a atenção da criança para a importância que o adulto dá ao seu excremento. O coco passa a ser um recurso eficiente para controlar o interesse dela por ele. E também um meio de manipulá-la e agredi-la. O comportamento anal passa a ser o modelo básico de manipulação do mundo.
Fixação: Controlar todas as saídas viscerais. Negar expressão quando solicitado, ou expressa-las em situações impróprias como meio de agressão, manipulação, controle do mundo, como se expressões, emoções, impulsos e comunicações fossem produções excretoras.
Atender a onda dois (Expulsar os excrementos) ou a onda um (Retê-los e ter a garantia do amor materno) passa a ser modelo básico de ambivalência e dúvida. As conotações de feio, sujo e vergonhoso se estendem às emoções, impulsos, comunicações, etc.
Assim, eliminar as fezes pode ser tanto um ato prazeroso quanto agressivo. Segurá-la pode ser tanto a busca de amor quanto uma atitude hostil.
A ambivalência dúvida e as culpas estarão sempre implícitos no comportamento anal. A ambivalência estará expressa em tensões musculares contraditórias que impedem movimentos espontâneos, leves e graciosos. Isso mantém a pessoa acossada internamente, com a constante sensação do temor do ridículo. Com medo de expor suas coisas sujas. A ambivalência se manifesta na conduta: A pessoa pode ser mesquinha, e no outro momento gastar muito. Surge a necessidade de manter um controle racional estrito e uma auto-critica feroz sobre toda produção interna, o que leva a dúvidas torturantes. O sistema se fecha, evitando formas eficientes de descarga. Isso gera culpa pelo isolamento em relação ao outro e ao mundo. A defesa anal encerra o eu num castelo intransponível, absorve energia do oceano orgone cósmico, e não descarrega nem devolve ao universo o que lhe é de direito. A pessoa fica impossibilitada de restabelecer contato com sua natureza interna e externa, assim como com Deus. A racionalidade anal procura sempre racionalizar a imensa culpa que sente.

- Analidade repressiva.

Nesse caso, as forças de contenção predominam sobre a busca do prazer excretor .Autonomia interna torna-se rígida, e a individualidade se fecha num bloco corporal compacto. Reter e acumular passam a ser traços valorizados, de onde derivam à mesquinhez e a avareza. Preocupação excessiva com dinheiro e bens. O controle racional, a auto-critica, a dúvida a ambivalência e a culpa atingem o seu grau máximo.

- Analidade insatisfeita.

Apresenta a contenção predominando no bloco funcional superior, enquanto o bloco inferior apresenta-se mais livre. A contenção se faz sobre a onda emocional. É como se o ego tivesse desistido da busca do amor em prol do prazer anal e dos ganhos secundários derivados dos cuidados e atenção com a higiene. O controle racional, a ambivalência, a culpa, a dúvida continuam presentes, mas num grau mais ameno. A mesquinhez e a avareza estão ausentes em função da liberação anal. Buscará pessoas que cuidem dele, limpem e ordenem suas coisas pessoais e organize seu tempo, seu trabalho, etc. Como a onda descendente (dois) está presente, este caso está a meio caminho da genitalidade, e sua ambivalência se expressará entre a solução anal passiva e a genitalidade. Essa defesa passiva é próxima da defesa histérica, para alguns orgonomistas.

O desenvolvimento da função mental/racional está ligado à fase anal. Separar o intelecto saudável do patológico (intelecto como defesa).
No animal, as sensações internas (fome) e as percepções externas (um predador) são mutuamente ativantes, geram uma tensão e levam à ação. A fome leva a localização (percepção) do alimento. O predador (percepção externa) gera uma sensação (medo), que os faz agir.
No ser humano, a função mental possibilita a contenção da tensão interna, bloqueando seu livre fluxo para o músculo. Essa contenção desvia o fluxo energético de volta para o cérebro. Além da contenção geral da musculatura, a retração do anel oral e sua fixação ao cervical fazem o trabalho de desviar o fluxo energético para a cabeça. Esse mecanismo é saudável e está na base da postergação. Até a fase oral, os problemas requerem soluções imediatas. Na fase anal, a criança começa a desenvolver a capacidade de postergação, ou seja, passa a suportar um aumento da pressão interna, buscando situações mais adequadas a sua satisfação.

Função mental:

Definição bioenergética: Capacidade de desviar o fluxo energético para avaliação das sensações e percepções, ensaiar a ação, e por fim, dirigi-la de forma voluntária.
Os bloqueios da fase anal ocasionam um isolamento do eu e o enrijecimento da percepção. Nessas condições, a racionalidade perde seus pilares do sentir profundo e da percepção fluida. Ego, buscando equacionar-se no mundo, aberto a idéias, pessoas, crenças, ideologias, perde a possibilidade do questionamento a partir do sentir profundo e da percepção mais livre. Assim, forma-se uma racionalidade secundaria que alimentará comportamentos rígidos e constantes, que refletirão circularmente em percepções rígidas de si próprio e do mundo. Essa racionalidade secundaria preenche o vazio perceptivo ao mesmo tempo em que impede o acesso a ele. Ela é desprovida de sentimentos, de coração.
As fixações insatisfeitas, de modo geral, apresentam baixa capacidade de contenção, sendo, dessa forma, impulsivas. As defesas repressivas apresentam maior capacidade de contenção. Uma racionalidade mais intensa, que, constantemente, os impede de agir. O bloqueio do anel cervical, entretanto, está presente em todos os tipos de neurose.

d. Fase genital infantil

A criança se volta para a diferenciação sexual e para a aprendizagem dos modelos com os quais se identificarem. Irá até a fase dos seis anos. Energeticamente, significa que a onda descendente já estruturou suas bases e agora vai para frente, ativando os órgãos genitais. O ego passa a lidar com o prazer genital e precisa aprender novos comportamentos para lidar com essa função emergente. Corporalmente, ele deverá assumir a flexibilização da pelve para uma liberdade genital maior e sua mobilização anteroposterior para atender a necessidade sexual. A energia está se dirigindo para os genitais.

Desenvolvimento e relacionamento com os pais:

1. Fases visual e oral: O bebe necessita do mundo, centralizado na figura materna, para o alimento, proteção e acolhimento.
2. Fase anal: Diferenciação entre as figuras paterna e materna. A mãe representa o centro da relação de dependência. Pai passa a ser a ponte efetiva para o desenvolvimento da autonomia e modelo para uma relação com o mundo mais amplo. Nessa fase, a criança, independente de sua sexualidade, precisa que a mãe aceite o afrouxamento progressivo da dependência e o pai o apóie no desenvolvimento da autonomia e segurança.

3. Fase genital: Os papéis dos pais variam, dependendo da identidade sexual.


- Menino:

O pai é modelo de como ser homem. Este tentará imita-lo nos gestos, atitudes, gostos. Imitação, identificação e supervalorização paterna. Após identificar-se como homem, o garoto volta-se para a mãe, buscando-a como mulher (apenas o papel. Ele não tem maturidade para efetivar). Ele precisa ser amado em seu novo papel, mas ao se aproximar da mãe, é invadido pela angústia incestuosa. O pai passa a ser um rival, o que pode gerar competição e confronto. Porém, essa rivalidade também serve para diminuir a angustia. O pai é o limite ao seu desejo e a salvação contra a angustia incestuosa.

> Se a figura paterna for muito frágil: Formação de um tipo de impulsivo sexual com fortes traços incestuosos, sobretudo se também ocorrer sedução materna. Diante da angustia incestuosa pode dar-se ainda um recuo para a analidade passiva ou oralidade.

> Figura paterna muito forte ou agressiva/competitiva: Intensa angustia de castração, com o risco de uma fuga da genitalidade.

- Menina:

Período de reconhecimento, identificação e imitação/supervalorização. Em seguida, busca o pai para experimentar seu novo papel. Mãe surge como rival, estabelecendo os limites da relação. Angustias incestuosa e de castração entram em cena.

>Figura materna frágil e sedução paterna: Fixação na busca sexual incestuosa.

> Mãe agressiva e competitiva: Poderá ativar a angustia de castração e recuo para analidade ou oralidade.

Quando uma criança não se sente amada em sua identidade sexual, ela pode:

- recuar para estágios anteriores.
- Permanecer na genitalidade, porém carregada de mágoa, ressentimento e desejos de vingança.

Dificuldades da criança em seu desenvolvimento:

- Dificuldades de identificação com o genitor do mesmo sexo, por aspectos negativos que ele expresse em relação a sexualidade. Mãe submissa, pai passivo, mensagens negativas a respeito da sexualidade e das figuras materna e paterna.
- Falta de receptividade do genitor do sexo oposto, gerando a experiência de não ser amado em sua diferenciação sexual, o que ativa a mágoa, o ressentimento e os impulsos vingativos na relação afetivo-sexual. Com freqüência os pais não suportam o contato físico com os filhos quando estes começam a mostrar interesse sexual.

- Ausência de limites expressa por um ou os dois genitores. Intensificação da angustia incestuosa e eventuais recuos às fases anteriores. Pais passivos ou ausentes; Separação nessa fase crítica e liberalidade sem contato emocional.

- Sedução pelo pai do sexo oposto, geralmente associadas a indisfarçáveis discriminações entre os vários filhos. Intensificação da competição e dificuldades entre irmãos do mesmo sexo, além de ativar uma busca incestuosa impulsiva. Em casais com dificuldade, pais podem arregimentar sedutoramente os filhos como aliados em sua disputa pessoal.

- Limite e competitividade agressiva exageradas impostas por pais rígidos e inseguros ou diante de uma irmandade muito grande ou muito competitiva intensificam a angustia de castração fazendo recuar a genitalidade e o impulso ao crescimento. Advém daí o medo de lutar, de conquistar, de ter sucesso.

A fixação na fase genital infantil (defesa rígida) é dividida em dois sub-tipos:
Em cada um, há o traço insatisfeito e o repressivo.Culturalmente, o tipo fálico-narcisista é masculino, e o tipo genital-incestuosa é mais feminino.

- Fálico-narcisita. Dois sub-sub-tipos.

O homem fálico e a mulher agressivo-masculina.

Ligado a sexualidade de forma narcísica. Vivencia centrada nas funções mental e muscular. Pouco contato com a função visceral. O fálico insatisfeito age com impulsividade, em busca da conquista sexual, que se sobrepõe ao prazer sexual. O fálico repressivo, a força narcísica age em direção oposta ao impulso, criando intensa atitude repressiva sobre a sexualidade e sobre atitudes sexuais no nível social. (Parece-se com o caráter compulsivo de Lowen).

-Genital-incestuosa. Dois sub-sub-tipos.

Mulher histérica e o homem passivo-feminino. Manteve-se visceralmente ligado a sexualidade, porém com intensa angustia incestuosa. No traço insatisfeito, o ego foge da angustia numa busca frenética de sexo, podendo chegar a ninfomania. No traço repressivo, o medo da sexualidade gera contenção do prazer sexual, resultando anestesia genital ou recuo para analidade/oralidade.





4. Fase do poder

A fase do poder é posterior a fase genital infantil. Alfred Adler chamou a atenção para a importância da busca do poder no desenvolvimento humano.
Em cada etapa do desenvolvimento o ego assume controle sobre um determinado grupo de músculos responsáveis pelo controle de funções bioenergéticas específicas. Na fase do poder, a onda bioenergética envolvida liga-se às ondas emocional e do prazer. O ego desenvolve o controle sobre a musculatura diafragmática.

Respiração:

Duas formas de respiração: Torácica e abdominal. A torácica é mais fácil de controlar, pois tem inervação predominante via nervos espinais. Começa a ser assumida pelo ego na fase anal. O controle voluntário é mais acessível. A respiração abdominal é mais involuntária, pois o diafragma é enervado via nervo frênico. Como também tem enervamento espinhal, pode ser controlada voluntariamente, embora de forma mais tardia.
A ação egóica sobre o diafragma possibilita o controle dos blocos funcionais, podendo bloquear as ondas emocional e do prazer. Esse controle possibilita a expeeriencia do controle interno, que servirá de base para o controle e busca do poder externo. Estabelece assim, o poder mental sobre os sentimentos e sobre os impulsos. A vida começa a ser dirigida racionalmente.
Aos sete anos, a criança empreende seu movimento de ir para o mundo externo/social. Começa a desenvolver a racionalidade e as habilidades físicas, ligando-a ao mundo dos esportes competitivos. Necessitará de modelos de comportamento social e de apoio para ser bem-sucedida. Os conflitos nessa fase têm origem na falta ou traição ao apoio necessário. Também na falta de modelos significativos. Normalmente as duas coisas ocorrem juntas.

Exemplo de formação da defesa psicopática:

Um garoto que necessita do modelo paterno para o comportamento social. Se a mãe desqualifica o pai ou este for muito severo, distante ou frágil, o garoto volta-se para a mãe retomando a identificação com ela. Em geral, contará também com muita sedução da parte dela. Passará a ser o filho especial que a salvará daquele pai ou do mundo. A criança desloca então toda sua energia para a cabeça para lidar com o mundo e enfrentar a vida social. Carregará internamente uma identidade feminina. Mais tarde, contará com a reprovação materna por seu comportamento. Para ser o garoto especial teve que fazer uma traição interna em relação a sua identidade masculina e depois se sentirá também traído pela mãe. A partir daí, apresentará um comportamento duplo: Será um bom garoto na aparência e terá seu comportamento psicopático numa vida dupla. Com a menina pode ocorrer a mesma dinâmica, mas com relação ao pai.
Outras situações que podem ativar esta forma de defesa: Falta de apoio na fase de socialização da criança, desorganização familiar, recorrência de situações de injustiça, traição familiar em seu esforço de conquista social. Todas as situações em que a criança necessita crescer rápido, fazer esforço para sobreviver ou suportar injustiças exigirão dela o abandono precoce da infância e o uso prematuro da mente racional para confrontar-se com o mundo. A sensação interna de traição será constante.
Corporalmente, a defesa psicopática se organiza a partir do controle dos blocos funcionais. O controle sobre a onda descendente desvia a energia para o bloco superior, fornecendo energia ao movimento de conquista, competição, poder e prestígio. O controle sobre a onda ascendente, por sua vez, bloqueia a resposta emocional, proporcionando energia para o poder místico e a megalomania. Esse bloqueio leva ao deslocamento da energia para cima, em direção a cabeça. A atitude de superioridade expressa esse deslocamento. O controle mental sobre o prazer sexual. Este pode ser rebaixado e substituído pelo prazer oral, como demonstra a “barriga proeminente” do homem bem sucedido. A área diafragmática apresenta-se abaulada, indicando o uso do poder como evitação do medo.
Atitude espoliativa sobre a vida interna e sobre a natureza e as pessoas. A culpa resultante exige a reparação frente a sociedade, e sua não-solução resulta em atitudes auto-destrutivas.
Toda neurose tem um encouraçamento do diafragma e uma não aceitação da vida em sua expressão natural.

- Fixação insatisfeita:

Busca constante e impulsiva da conquista, domínio, posse e subjugação do mundo. Controle constante do mundo externo. Quando ligada a onda dois (descendente), expressa-se num poder efetivo de ação no mundo. Se predominar a onda ascendente (um), pode haver uma atitude sugadora e megalomaníaca, quando ligada a oralidade, ou mística, quando ligada ao visual.

- Fixação repressiva.

Luta contra os impulsos e teme a subjugação interna e externa. Temor pode se ligar a um poder real externo (genital), um medo vago de ser explorado (oral), ou dominado por forças misteriosas (visual). Controle espoliativo se dá sobre a vida interna e num afastamento dos estímulos que ativem as funções vitais temidas e controladas. Conflito básico entre dominação ou subjugação. Suas defesas são conhecidas como deslocamentos ou defesas psicopaticas.

e. Formações reativas, impulsividade e sublimações.

Segundo Baker, todo adulto medianamente são atingiu a fase genital infantil. A fase de organização final do caráter retomará as defesas que de alguma forma tiveram mais eficiência na solução biossistêmica e na garantia do amor da infância É claro que uma fixação na fase visual ou oral diminuirá a energia disponível que se orientará para a analidade, e uma fixação nesta diminui a força da genitalidade. “não existem tipos caracteriológicos puros , mas uma mescla de soluções com predominância em determinadas formas de descarga energética.” Mesmo essa predominância varia no decorrer da terapia e do dia a dia.
Uma superposição de duas ou três defesas é o que costuma ocorrer, com uma delas predominando e dando o colorido específico ao caráter. O trabalho analítico em geral é feito a partir da defesa mais superficial em direção as mais profundas (É o “descascar a cebola” de Reich).
Ao tentar estabelecer um diagnóstico, o trabalho é bem mais complexo, visto que a organização final do caráter é uma disposição dinâmica de defesas. “Estamos interessados na disposição dinâmica das defesas, e não no estabelecimento de um diagnóstico de caráter!”.

No adulto, a energia que ultrapassa o nível genital fica disponível para a sublimação, para o desenvolvimento de potenciais humanos superiores. A energia que se mantiver fixada nas várias fases do desenvolvimento será consumida, alimentando comportamentos específicos. Tais comportamentos constituem as formações reativas e comportamentos impulsivos.
Conceito de sublimação em Freud e em Reich: Para Freud, a sublimação é a contenção do impulso e seu redirecionamento para comportamentos sociais (como a formação reativa de reich). Para reich, a sublimação ocorre quando ultrapassa o nível genital adulto, e não antes dele, passando a ficar disponíveis para potenciais superiores. Reich observava que após a liberação das fixações infantis, ocorria uma mudança qualitativa em seus clientes. Eles se tornavam naturalmente amorosos e ligavam-se a uma moral natural e a valores universais. Postulou a existência de um caráter natural e saudável: O caráter genital.

Emergência do ego maduro:

Resolvidos os conflitos até o nível genital, a energia do homem fica disponível para os potenciais humanos superiores. O autor os chama de potenciais pós-genitais, ao invés de sublimações, como Reich.
Em cada fixação há retenção de energia, frustração de anseio, dor e raiva. É mantida no corpo por retenções musculares e na mente por crenças.

Fim

Um comentário:

Nairana disse...

Que iniciativa legal! Parabéns, André!